Captulo 3
Socializao
Clara Regina Rappaport
3.1 Os pais
Podemos considerar a socializao, de maneira bastante ampla, como o processo pelo qual a criana adquire 
comportamentos, atitudes, valores etc., considerados adequados pela cultura onde vive. Os papis sociais 
variam, em todas as culturas, de acordo com o sexo, a idad, o status scio-econmico-cultural do sujeito etc. e 
se formam durante toda a infncia e adolescncia. 
A doutora Jacyra Calazans Campos, em sua tese de doutoramento intitulada Ausncia paterna: correlatos 
cognitivos e de personalidade dos filhos na idade pr-escolar, apresentada ao Instituto de Psicologia da 
Universidade de So Paulo em 1979, faz uma excelente reviso da literatura a respeito do papel dos pais na 
socializao da criana. 
Referindo-se s prticas de criao infantil, ela destaca a influncia da classe social a que pertence a famlia 
como determinante do tipo de atitude que ser adotado em relao aos filhos. Se os pais da classe mdia usam 
predominantemente uma disciplina orientada para o amor, onde os estados interiores da criana so 
valorizados, se h uma interao mais democrtica e de maior aceitao da criana, os pais de classe baixa 
preocupam-se mais com os padres externos de conduta, ressaltam a importncia da obedincia  autoridade e 
a baixa tolerncia  agresso dirigida aos prprios pais. 
Isto pode ser ilustrado por uma pesquisa realizada em nosso meio e relatada na revista Cadernos de Pesquisa 
da Fundao Carlos Chagas, a respeito de educao sexual de crianas. A pesquisa foi realizada por Barroso 
e Bruschini em colaborao com Kubota e Lessa, no ano de 1978, com o objetivo de identificar o conceito de 
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educao sexual de 66 mes de pr-escolares, visando a fornecer subsdios a programas de orientao sexual 
na rea materno-infantil de servios de sade. Os dados so oriundos de entrevistas e revelam o seguinte: 
quando as crianas perguntam sobre a fecundao e o nascimento, as mes transmitem poucas informaes 
sobre o mecanismo psicolgico de reproduo (por vergonha ou por achar que as crianas no devem 
saber estas coisas), prestando informaes fantasiosas e irreais sobre a concepo e o nascimento 
(cegonha, Deus ou avio que trouxe). Em relao  manipulao dos genitais, as prticas punitivas vo 
desde dar a bronca, brigar at bater na criana. No caso do menino so usadas expresses como o pipi 
cai; o bicho come e a mo cai; pode machucar, di etc. Em relao s meninas, a represso pela 
manipulao dos genitais  ainda mais violenta. Embora estas mes achem que os fatos da vida devem ser 
ensinados aos filhos, estas informaes devem ser retardadas at o incio da adolescncia. No caso das moas, 
a preocupao  informar para prevenir a gravidez. 
Quando o nvel social  muito baixo, parece haver completa alienao dos pais com relao  responsabilidade 
pela socializao dos filhos. Em uma pesquisa realizada em favelas por Minuchin (1967) e relatada pela doutora 
Jacyra, trs quartos das famlias pesquisadas no contavam com a figura do pai. Mas, mesmo quando havia um 
pai, as tarefas de criao e educao dos filhos eram delegadas de forma total  me. Esta se restringia a prover 
as necessidades bsicas de nutrio das crianas e tendia a se considerar sobrecarregada com as exigncias da 
criana, desamparada e sem poder. Manifestava grandes dificuldades em orientar ou controlar o 
comportamento dos filhos, punindo-os de maneira inconsistente. Quando as crianas manifestavam 
comportamento de submisso, a me conseguia manter com elas algum tipo de interao. Quando estas pediam 
orientao, a me, incapaz de d-la, recorria  autonomia da criana no sentido de que esta deveria buscar 
sozinha a resposta, ou ento pedia a colaborao de um irmo mais velho. Assim, o grupo de irmos tornava-
se o ponto de referncia para a conduta da criana, visto serem os pais incapazes de fornec-lo. 
Em relao  influncia de irmos na socializao de crianas de classe muito baixa,  impressionante o relato 
da situao de vida de crianas em Salvador, Bahia, que se viram sem os pais e tentaram vrias maneiras de 
sobreviver sozinhas para evitar o internamento em orfanatos ou instituies congneres. Este relato foi 
publicado por Zahide Machado Neto na mesma revista da Fundao Carlos Chagas acima citada. 
Transcrevemos um trecho para ilustrao: 
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- 
Esse era o caso de uma famlia constituda exclusivamente de menores. Aps a morte da me, que ocorreu trs meses 
depois da do pai, no havendo parentes prximos, os vizinhos comearam, como alis j vinham fazendo quando os pais 
estavam doentes, a ajudar as crianas, cujas idades variavam de quinze anos a seis meses, num total de cinco meninos e 
duas meninas. O menino mais velho decidiu, mesmo contra a opinio da vizinhana, que deveriam ficar juntos. Ele j 
trabalhava carregando compras num supermercado de um bairro prximo, e esse biscate vinha ajudando a famlia, pois o 
pai, trabalhador avulso, fazia biscates e pequenos servios de pedreiro. Os dois seguintes, uma menina de quatorze anos e 
um menino de doze, vinham conseguindo ganhar alguma coisa, ela como ajudante de cozinheira num restaurante do bairro, 
ele como ajudante de um vizinho, bombeiro-hidrulico autnomo. Com a renda do trabalho desses trs, alm dos pequenos 
servios de carregar gua e tirar lixo, feitos esporadicamente por um outro menino de dez anos, procuravam solucionar de 
algum modo a sobrevivncia da famlia. Os servios domsticos, principalmente o cuidado dos menores, ficavam com uma 
menina de nove anos, mas os demais tambm participavam, na medida em que o trabalho fora de casa permitia. Os 
problemas maiores eram, alm de conseguir dinheiro para a alimentao, pagar o aluguel da casa de dois cmodos, a gua, 
fornecida por uma vizinha prxima, e a luz, obtida por um gato do vizinho. 
A vida dessa famlia de menores se passava, principalmente para os mais velhos, quase que exclusivamente dedicada ao 
trabalho. A jornada diria dos dois adolescentes chegava a alcanar dez horas de atividade. Aos sbados, o dinheiro ganho 
durante a semana era reunido e, para tanto, o mais velho tinha que afirmar sua autoridade ante o mais moo, de doze anos, 
que sempre se recusava a entregar a fria recebida, alegando que queria ir ao futebol. A visvel liderana do mais velho 
parecia importante para manter conveniente- mente o grupo. Ele distribua as tarefas domsticas a serem feitas, impunha 
certa ordem no exguo espao onde viviam e chegava mesmo a castigar os que se recusavam a obedec-lo. 
A menina, ajudante de cozinheira, conseguia trazer para a famlia algumas sobras do restaurante, o que ajudava um pouco 
a difcil repartio do alimento, feita por ela prpria. 
O problema maior para o grupo, alm do dinheiro, era a sade dos pequenos. Aconselhados pelos vizinhos, procuravam o 
posto mdico, geralmente para uma menina de dois anos, sempre doente. Ter que levar a irm ao posto implicava para a 
menina de quatorze anos faltar ao trablho e ter de contar com a benevolncia do dono do restaurante. A criana de seis 
meses morreu e o grupo enfrentou os problemas de enterro, va1endo-se ainda uma vez da experincia da vizinhana e 
apelando para um servio particular de caridade. 
Pouco depois mais dois deles ficaram doentes, e pde-se saber que estavam tuberculosos. Os dois mais velhos, nesse 
momento, estavam s voltas com o menino de doze anos, que havia fugido de casa, e os problemas se acumulavam. Eles 
temiam a interveno do Juizado de Menores, pois algum lhes informara que eles no podiam ficar sem o controle de uma 
autoridade ou de uma famlia. 
A esse tempo morrera um dos meninos tuberculosos, e o outro tinha sido internado num hospital atravs da ingerncia de 
uma organizao religiosa do bairro. Esta, por sua vez, tentou orientar o grupo para solues de ordem institucional atravs 
do Juizado de Menores, propondo adoes e internamentos, mas os mais velhos resistiram, e no momento em que foram 
ultimadas as observaes estavam procurando outras fontes de trabalho. 
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Este relato  de um caso no muito comum, mas esclarece um pouco at que limites um grupo de crianas e adolescentes 
pode chegar no esforo de trabalhar para sobreviver (p. 96-97). 
Zahide relata em seqncia vrios outros casos de famlias com presena ou ausncia do pai, mostrando como a criana, 
alm de colaborar nos trabalhos domsticos desde idades precoces, realiza vrios tipos de tarefas e biscates para auxiliar no 
oramento familiar (vender pastel, biscoito, amendoim; carregar coisas; ajudar borracheiro; servir de bab ou de ajudante de 
costureira etc.). Essas atividades so todas desgastantes, sem garantias legais, e no permitem freqncia  escola ou mesmo 
treinamento profissional adequado. 
Conclui a autora que o processo de socializao ou adultizao, como ela chama, da criana nas camadas mais 
desfavorecidas das classes baixas  todo realizado em funo da necessidade de se ganhar a vida (p. 101). 
Por mais adversas que possam ser as condies de vida das crianas de classe baixa que vivem com suas famlias, mais 
triste ainda parece ser o quadro daquelas que vivem institucionalizadas, mormente quando esta institucionalizao ocorre 
em idade precoce. 
Este quadro foi analisado por M. Guirado em sua obra A criana e a FEBEM, publicada recentemente. Nesta obra, aps 
fazer uma breve reviso da literatura estrangeira que descreve os processos psicolgicos que ocorrem quando a criana  
separada de sua me, descreve as caractersticas de uma instituio oficial brasileira, a FEBEM, e acompanha o processo de 
internao de quatro crianas, desde o momento em que as mes se apresentam  assistente social, trazendo seus filhos, at 
alguns meses de sua vida dentro da instituio. 
O que parece ocorrer na criana institucionalizada, de acordo com as descries de Guirado,  quase o inverso do que ocorre 
no desenvolvimento de crianas no seio de uma famlia adequada. Se na famlia as prticas de socializao e a interao 
afetiva entre os pais e as crianas parecem determinar uma riqueza interior, uma coniplexidade de sentimentos e de relaes 
interindividuais, permitindo  criana o desenvolvimento pleno de suas capacidades cognitivas, de sua afetividade, de suas 
relaes sociais com seus pares ou com a sociedade mais ampla, de modo geral a criana que  separada dos pais e 
institucionalizada parece seguir um caminho inverso. Por falta de estimulao afetiva, por falta de uma pessoa que lhe 
transmita o sentimento de que ela  importante e amada, parece ocorrer urna estagnao, seno um retrocesso a nveis mais 
primitivos de funcionamento afetivo e intelectual. As crianas voltam-se para si mesmas, procurando algum prazer que d 
sentido  sua existncia vazia e desprovida de objetivos. 
91 
1 
3.].]. Apecros da socializao na famlia 
Vrias tcnicas podem ser utilizadas no processo de socializao, mas todas elas so acompanhadas de instrues orais. 
Na classe mdia, a comunicao oral se d atravs de um cdigo lingstico elaborado, onde os sentimentos, as preferncias, 
as reaes pessoais e os estados subjetivos justificam o comportamento. So permitidas vrias alternativas de 
comportamento na interao inter- pessoal, havendo menos imposies e mais comunicao verbal. 
Na classe baixa as ordens so taxativas, transmitidas por uma nica mensagem simples. As crianas emitem respostas 
condicionadas, no tendo necessidade de refletir ou fazer discriminaes, o que no incentiva o pensamento, pois no 
existem vrias possibilidades a serem consideradas, no havendo necessidade de discriminaes mais refinadas. Assim, a 
versatilidade lingstica e cognitiva tende a se desenvolver em crianas de classe mdia, enquanto na classe baixa vai hsver 
predomnio de um cdigo lingstico restrito. 
Muitas respostas sociais so aprendidas simplesmente rIa observao e reproduo de comportamentos observados em 
outras pessoas, nos primeiros anos de vida e mesmo durante a poca da freqncia  escola primria. Nesta fase, o 
comportamento dos pais serve como modelo para o comportamento dos filhos (no excluindo outros modelos, tais como 
companheiros, professores ou personagens da TV e das revistas em quadrinhos). A imitao ir depender do 
relacionamento modelo-observador e do reforo que se segue  emisso do comporlamento observado. 
A identificao para os tericos da aprendizagem social (Bronfenbrenner, 1960; Bandura e Huston, 1961)  um conceito 
muito prximo ao de imitao. Trata-se mais de um processo de reproduo de atitudes dos pais, ou de outros modelos, 
que no foram intencionalmente ensinados s crianas, atravs de recompensas ou punies diretas. 
Segundo Mowrer (1950), pode ocorrer a identificao evolutiva porque a me  mediadora de recompensas biolgicas e 
sociais e, portanto, seu comportamento adquire valor de reforo secundrio para a criana. Assim, a criana pode auto-
reforar-se por reproduzir o comportamento da me ou do pai. Pode ocorrer tambm a identificao defensiva, quando as 
exigncias disciplinares dos pais envolvem frustrao e punio e, conseqentemente, sentimentos agressivos de dio. Para 
solucionar este conflito interno, a criana pode acatar e interiorizar os padres de comportamento e os valores 
1 Estes aspectos esto descritos detalhadamente no livro de Campos e Carvalho, Psicologia do Desenvolvimento: influncia 
da famlia. 
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sociais dos pais. isto poderia ser denominado formao de carter de conscincia ou mesmo de superego. 
Enfim, o papel dos pais como agentes socializadores  fundamental. So eles as primeiras pessoas com as quais as crianas 
se identificam. Suas caractersticas de personalidade bem como o clima criado na famlia pela adoo de um tipo ou outro de 
prtica de criao infantil so decisivos para determinar o desenvolvimento social dos filhos. 
3.1.2 Influncia da me 
Todos os tericos do desenvolvimento, bem como a prpria literatura popular, exaltam a importncia da qualidade do 
relacionamento criana-me para o desenvolvimento da personalidade. 2 Limitar-nos-emos a examinar, neste momento, de 
modo bastante sucinto, a posio da aprendizagem social. 
Se por um lado os psicanalistas descrevem o envolvimento afetivo entre me e criana em termos de formao das 
primeiras relaes objetais que iro influenciar as outras ligaes afetivas que se desenvolvem em fases posteriores da vida, 
baseados principalmente na prtica clnica com adultos e crianas, normais ou com vrios tipos de patologia, os tericos da 
aprendizagem social concluem, atravs da observao e da pesquisa emprica, que o elo que se estabelece entre me e filho 
no incio da vida servir de base para as futuras relaes interpessoais do indivduo. 
Os tericos da aprendizagem social que aceitam o conceito de dependncia como impulso adquirido explicam que o incio 
da formao do elo me-criana se relaciona com a satisfao de necessidades fisiolgicas bsicas. A presena da me torna-
se sinal de que o impulso ser satisfeito, de forma que seu rosto, seus gestos, suas atitudes constituem sinais de que a 
gratificao chegar. Assim, a criana desenvolve o impulso de dependncia, a tendncia para ficar prxima da me e buscar 
sua ateno e proteo. Este comportamento caracterstico da criana pr-escolar tende a diminuir aps os sete anos, 
quando a criana j desenvolveu uma srie de capacidades motoras, cognitivas e emocionais que lhe permitem cuidar de sua 
prpria segurana fsica (as quedas diminuem sensivelmente, a criana sabe atravessar ruas etc.) e lhe d amplas 
possibilidades de discriminaes e de soluo de problemas (pelo desenvolvimento da inteligncia). O vnculo afetivo com 
os pais se tornou 
2Ver o volume 2 desta srie, que analisa detalhadamente a relao entre a criana e a me no incio da vida. 
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muito menos conflitante (pela superao do Edipo) ao mesmo tempo que o desenvolvimento dos julgamentos 
morais permite que a criana analise seu prprio procedimento e o dos demais. Todas estas aquisies fazem 
com que a criana possa deslocar seus interesses da famlia para outros grupos sociais, principalmente os 
companheiros de estudo ou de brinquedos. Porm, a me continuar sendo vista como a figura protetora e 
afetiva que poder ser procurada toda vez que dificuldades maiores surgirem. 
Koppitz (1957) verificou, em pesquisa com 75 meninos de 12 anos, em mdia, que a personalidade e o 
ajustamento da me se relacionaram com o ajustamento da criana. As crianas que se sentiam ansiosas e 
culpadas e se consideravam ms eram filhas de mes psicologicarnente instveis. 
Alm de desempenhar papel fundamental no desenvolvimento afetivo e social da criana, a me pode 
contribuir sensivelmente para o seu desenvolvimento cognitivo satisfatrio. Ambientes empobrecidos, com 
pouca estimulao e poucas oportunidades para a explorao e a manipulao, podem levar a dificuldades para 
discriminar e solucionar problemas, a pouca capacidade de trabalho intelectual e a uma tendncia reduzida para 
relacionar eventos e tirar concluses. 
Sabe-se que o desenvolvimento cognitivo depende entre outros fatores da estimulao propiciada pelo 
ambiente. A criana precisa ser exposta a um grande nmero de situaes e de informaes para poder 
desenvolver seus esquemas conceituais. O ambiente domstico, mormente nos primeiros anos de vida, deve 
propiciar estas vivncias, para que o desenvolvimento cognitivo siga suas tendncias naturais. Na idade 
escolar, tanto a famlia como a escola e a comunidade, de modo geral, devem oferecer estimulao para que a 
criana desenvolva plenamente sua capacidade de pensar logicamente a respeito de inmeras situaes. 
Adquirindo a noo de conservao e invarincia, a criana ir formar urna viso bastante correta da realidade. 
Ir desenvolver esquemas conceituais e operar com eles. Isto pressupe a possibilidade de manipular, de 
explorar e tambm a solicitao e o reforo por parte de pais e tnestres. 
Estas consideraes levam ao papel da me (e do pai tambm) como provedora de um ambiente estimulador, na 
infncia, pois j se constatou que, em zonas rurais ou mesmo urbanas com pouca estimulao e pouca 
exigncia de realizao intelectual, as pessoas podem no atingir o perodo das operaes formais, alcanado 
normalmente aos 12 anos. Ou, pelo menos, podem permanecer atuando de um modo muito mais prximo 
daquele manifestado pelas crianas operacionais concretas do que pelos adolescentes e adultos (que realizam 
operaes formais). 
Se  a me que, geralmente, se encarrega da criao dos filhos, ela deve propiciar  criana os recursos 
adequados para o desenvolvimento de suas potencialidades. Da a necessidade de instruir as mes, 
principalmente na classe baixa, sobre este aspecto. 
3.1.3 Influncia do pai 
A constatao da importncia do pai para o desenvolvimento da criana partiu das colocaes da psicanlise 
relativas s vivncias edpicas. Assim, o pai comearia a ter importncia no desenvolvimento da criana a partir 
dos 3 anos aproximadamente, e sua atuao se diferenciaria no caso da menina e do menino. Em ambos os 
casos, o pai seria fundamental no processo de formao do Superego, no que se refere  interiorizao de urna 
srie de regras morais que so fundamentais para o convvio social. Embora o complexo de Edipo ocorra 
diferentemente no menino e na menina, em ambos os casos o pai vai representar um mode.o de masculinidade. 
O menino ir identificar-se com os padres de conduta paternos, sendo um elemento essencial para a aquisio 
de uma identidade masculina saudvel. No caso da menina, o relacionamento com o pai servir de base para 
um futuro relacionamento com um companheiro do sexo oposto. 
A nosso ver, a pobreza da literatura (mormente da literatura sobre desenvolvimento que no deriva da 
Psicanlise) a respeito do papel do pai at a dcada de 60 est ligada a fatores culturais. Na sociedade 
ocidental, at essa poca os papis masculinos e femininos eram definidos de forma que ao pai cabia o papel 
de provedor, de responsvel pela manuteno econmica do lar e tambm de representante da autoridade.  
me cabia realizar as tarefas domsticas e todo o cuidado, orientao e educao dos filhos. A partir do 
momento social em que a mulher comeou a integrar de forma mais significativa,  fora de trabalho, os papis 
masculino e feminino, dentro do lar, deixaram de ser to estanques, e o pai passou a ser visto como um 
elemento importante para o desenvolvimento da personalidade da criana desde a infncia inicial. Inmeros 
estudos da dcada de 70 mostram que, alm de poder dispensar cuidados ao beb (alimentao, troca de 
fraldas etc.), o pai tambm se torna um elemento de ligao afetiva, embora sua atuao no seja igual  da 
me. O que essas pesquisas mostraram tambm  que o prprio pai se considera importante tanto no que se 
refere aos cuidados de vida prtica dispensados  criana, como na formao dos filhos. Revelaram ainda que 
o contato, o brinquedo e a companhia dos filhos so sentidos como prazerosos. 
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Na idade escolar, observa-se que o ajustamento pessoal e social da criana est muito relacionado s atitudes 
paternas. Pais muito autoritrios ou muito distantes afetivamente podem predispor ao aparecimento de 
problemas de personalidade nas crianas e tambm de dificuldades de interao com os companheiros. 
Poderamos dizer, ento, que o pai pode desempenhar um papel to importante quanto a me no 
desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criana. 
No que se refere  tipificao sexual, os tericos da aprendizagem social mostram que as crianas aprendem a 
se comportar de modo adequado dependendo dos modelos que lhes so apresentados na infncia, como 
tambm das expectativas dos pais. No h dvida de que outros modelos masculinos, como irmos, 
companheiros ou mesmo heris de TV, influem; mas o grau de masculinidade do pai, sua participao nas 
decises familiares e sua maneira de exercer a disciplina esto altamente associados ao desenvolvimento do 
papel masculino nos meninos. Isto no significa que o menino ser igual ao pai na idade adulta. Quando h 
uma boa interao afetiva e um modelo de masculinidade adequado dentro do lar, o menino ir desenvolver 
padres adequados de masculinidade, embora diferentes daqueles exibidos pelo pai (isto no significa dizer 
que as crianas sem pai, ou com interaes inadequadas, iro desenvolver comportamentos femininos ou se 
tornaro homossexuais; estas possibilidades existem, mas dependem da interao de uma srie de fatores, da 
personalidade da me, da interao familiar, da presena de outros elementos masculinos na famlia, de fatores 
culturais etc.). 
No caso da menina, o processo  diferente. A me ser a figura fundamental para o desenvolvimento da 
identidade sexual, mas o modo do pai tratar a filha poder ajud-la no sentido de valorizar sua feminilidade, 
incentivando-a em atividades e padres de comportamento apropriados ao seu sexo. 
Estes aspectos, obviamente, no atuam de maneira isolada no desenvolvimento da criana.  claro que a 
qualidade da interao me-filho(a) ou pai-filho(a) depende de inmeros fatores, desde aqueles diretamente 
presentes no processo de interao, elementos da personalidade de cada um dos integrantes, qualidade do 
relacionamento entre os cnjuges, nvel scio-econmico-cultural (j vimos que as prticas de criao infantil 
esto associadas  classe social e ao grau de escolaridade dos pais), posio ordinal da criana etc. 
3.2 Os companheiros 
O interesse da criana pelos companheiros da mesma idade parece iniciar-se ainda na infncia inicial, embora 
nos primeiros anos 
de vida ela esteja mais voltada para suas interaes com os adultos. Alguns estudos com animais demonstram 
que quando os filhotes de macacos so criados sem a companhia de outros filhotes desenvolvem 
comportamentos sociais diferentes daqueles que no so privados de contato social (como, por exemplo, a 
agressividade). 
Esses estudos de Harlow (1965) levantam a possibilidade de que as crianas que no tiverem oportunidade de 
conviver com seus semelhantes possam vir a desenvolver dificuldades no ajustamento social. 
Por outro lado, inmeros casos relatados por Anna Freud e seus colaboradores mostram que as crianas 
separadas dos pais durante a guerra desenvolveram sentimentos positivos de ligao entre si, que 
contriburam para superar suas angstias decorrentes da separao brusca e violenta de suas famlias. 
Hartup (1975) faz uma reviso bastante extensa da evoluo das relaes sociais. Mostra, atravs do relato de 
inmeras pesquisas, as mudanas quantitativas e qualitativas na participao social da criana. 
De maneira bem geral, podemos dizer que a criana evolui de um brinquedo solitrio (tpico dos 2 ou 3 
primeiros anos de vida) para uma atividade paralela (caracterizada por um fazer-coisas junto, mas sem uma 
participao efetiva, muito freqente na idade pr- escolar) e para uma atividade realmente cooperativa (na 
idade escolar). Essa evoluo ocorre paralelamente ao desenvolvimento cognitivo e emocional da criana. 
Na fase do egocentrismo as crianas tm mOita dificuldade em compartilhar seus brinquedos e esto 
centralizadas em sua prpria atividade. O altrusmo, a troca de idias e de objetos de brincar e o interesse pelo 
bem-estar do companheiro aumentam sensivelmente durante os anos de freqncia  escola primria, bem 
como a rivalidade, mormente entre elementos de grupos diferentes (so caractersticas a discriminao e a 
rivalidade existentes entre grupos de meninos e de meninas, muito bem representadas na literatura infantil de 
quadrinhos pelo clube do Bolinha x clube da Luluzinha). 
Os grupos informais de crianas geralmente so formados na vizinhana, nas escolas, nos clubes etc., e o 
sentimento de pertinncia. de identificao com os objetivos e normas do grupo  bastante significativo para o 
bem-estar psicolgico. Algumas crianas preferem fazer papis desagradveis, como palhao ou bobo da 
turma, mas  melhor sentir-se participando de alguma forma do grupo do que se manter em isolamento. 
Esses grupos em geral so bastante homogneos quanto  idade, ao sexo,  religio,  classe social etc., 
repetindo, de certa forma, os padres transmitidos pela famlia. Ocorre muitas vezes que a criana 
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discorda dos pais, em casa, em relao a um assunto qualquer (regra de conduta, valor moral) mas o defenda 
no grupo de companheiros. 
A solidariedade, a possibilidade de realizar coisas em comum, de desenvolver atividades de grupo, so uma 
fonte de muita satisf ao para a criana e a preparam para um convvio social saudvel na idade adulta. 
Sentimentos de rejeio podem conduzir a frustraes duradouras para o indivduo. 
O entrosamento adequado da criana no grupo depenue de fatores circunstanciais, mas est bastante 
relacionado com o tipo de personalidade dos pais e com as prticas de criao por eles adotadas. 
As crianas cujos pais apresentam elevada auto-estima e bom entrosamento entre si, baixas exigncias de 
agresso, pouco uso de punio agressiva, geralmente se adaptam bem ao grupo de companheiros (Winder e 
Ram, 1962, citados por Hartup). 
Hoffman (1961, tambm citado por Hartup) mostra a importncia do relacionamento com o pai, sobretudo no 
caso do menino, como preditor do entrosamento no grupo. Se o pai  dominador, a criana tende a ser violenta 
e inoportuna para iniciar amizades e tende a exercer grande poder sobre os companheiros do grupo (fica claro o 
papel da imitao do modelo paterno, neste caso). 
Pais e mes afetivos tendem a estimular a autoconfiana e a auto-estima, de modo que a criana se relaciona de 
forma adequada com seus semelhantes. O pai que apia a criana, que  participante na vida da famlia, auxilia 
o desenvolvimento de boas relaes sociais dela com os companheiros. 
Percebe-se que o processo de socializao  contnuo e integrado. Os aspectos da personalidade que se 
desenvolveram no contato com os pais na infncia inicial serviro de substrato para uma interao social 
adequada no grupo de companheiros, durante a idade escolar, e tero uma influncia duradoura em toda a 
interao social posterior. 
 claro que uma criana que se sentiu bem aceita, amada por seus pais, que foi alvo de prticas disciplinares 
norteadas pelo afeto e pelo bom senso, ir desenvolver um autoconceito favorvel, que lhe dar condies de 
interagir adequadamente com seus amigos. E claro que essa criana ter suas angstias e ansiedades, mas em 
grau menor, de forma que ter condies de se descontrair e de se gratificar no contato social. 
Por outro lado, uma criana com dvidas (ainda que no conscientizadas) a respeito do amor que os pais tm 
por ela desenvolver sentimentos negativos ou de dvidas a respeito de sua adequao como pessoa, e isto 
ir influenciar suas relaes sociais. A criana poder sentir-se rejeitada pelos companheiros e isolar-se do 
grupo, ou manter-se ligada a ele, porm com padres de comportamento 
inadequados (excessivamente agressivos ou autoritrios ou mesmo submissos). Nestes casos de dificuldades de 
entrosamento social com o grupo informal, pode-se recomendar  famlia que faa a criana participar de grupos formais 
sob a liderana de um adulto que possa facilitar esse entrosamento (como, p. ex., os grupos de escoteiros). 
inmeros estudos focalizaram a importncia do estilo de liderana adotado pelo adulto sobre o comportamento das crianas 
no grupo. So clssicos os trabalhos de Lippitt e Whitte, demonstrando que o lder autoritrio desenvolve alta tenso, 
agressividade ou apatia, alm da tendncia para o bode expiatrio, baixo sentimento de pertinncia e baixa motivao para 
a realizao de tarefas e apresentao de sugestes. A liderana do tipo laissez-faire determina instabilidade e 
agressividade em relao aos companheiros. J o lder democrtico consegue um sentimento de pertinncia e participao 
mais elevado e um padro de relao interpessoal mais satisfatrio e menos agressivo. 
 preciso, ento, tomar um certo cuidado ao indicar um grupo formal para uma criana, no sentido de verificar se o modo 
como o grupo  constitudo tende a facilitar a resoluo de suas dificuldades ou acentu-las. Uma criana excessivamente 
submissa ou excessivamente agressiva, participando de um grupo com liderana autoritria, poder ter estes sentimentos e 
comportamentos reforados e, portanto, exacerbados. J uma atitude cooperativa, acompanhada de comportamentos 
positivos (dilogos amistosos, ajuda etc.), contribui para a consolidao de um padro de interao mais adequado. 
O status da criana no grupo de companheiros parece ser o resultado da influncia de inmeros fatores. Crianas bem-
dotadas intelectualmente tendem a ser mais populares; filhos primognitos so mais ansiosos e dependentes do que seus 
irmos e, por isso, menos populares do que os filhos caulas. Crianas agressivas recebem maior nmero de escolhas 
sociomtricas do que crianas menos agressivas ou com formas mais imaturas ou indiretas de agressividade; a criana mais 
popular  bastante dependente de seus companheiros; a criana mais socivel  mais benquista pelos seus companheiros 
etc. 
Alm dos fatores de personalidade e inteligncia que facilitam ou dificultam o entrosamento da criana no grupo, existem 
outros de ordem social ou cultural que tambm podem interferir. As crianas de classe baixa so menos aceitas do que 
aquelas oriundas das classes mdia e alta, o mesmo ocorrendo em relao a fatores tnicos ou religiosos. 
3 Ver vois. 8 e 9 (Socializao) de Carmichael, Manual de Psicologia da Criana, E.P.U./EDUSP, 1975-78. 
98 
99 
Sabe-se que nossas escolas se norteiam pelos valores da classe mdia. Neste sentido, uma criana de classe 
baixa tende a ser menos ajustada e a apresentar rendimento escolar mais baixo. Os grupos mistos (compostos 
por crianas de vrias classes sociais) costumam adotar os valores da classe mdia, e ento uma criana de 
classe baixa ter mais dificuldade em ser aceita. Isto parece acontecer com mais intensidade durante a idade 
escolar do que na adolescncia, quando outros valores podem predominar. 
No h dvida, portanto, de que o estudo da formao dos grupos de crianas, dos fatores determinantes do 
ajustamento ou no de cada elemento,  bastante complexo, envolvendo desde habilidades especficas da 
criana (como nvel de inteligncia, por exemplo), passando por fatores de personalidade ou de relacionamento 
familiar, at chegar a influncias culturais e sociais. Desta complexidade de fatores decorre a dificuldade de se 
chegar a um melhor entendimento de influncia que a pertinncia ao grupo exerce na formao da 
personalidade. Sugerimos ao leitor que procure completar esta breve apresentao com leituras mais 
exaustivas, algumas delas sugeridas no final do captulo. 
3.3 Os meios de comunicao de massa: a televiso 
No h dvida de que a famlia e os companheiros sejam agentes socializadores fundamentais. Mas, 
atualmente, no podemos menosprezar os meios de comunicao de massa, notadamente a televiso, como 
transmissores de atitudes, normas e valores. Em quase todos os pases do ocidente, a criana  exposta  
programao da televiso desde idade precoce, e muito se tem falado a respeito dos efeitos perniciosos dessa 
exposio em termos de bloqueio cognitivo, de prejuzos emocionais etc. 
O dr. Flemmer, responsvel pela programao infantil numa das estaes de televiso da Alemanha, em 
seminrio realizado em So Paulo, em 1979, intitulado Limites da televiso como meio educacional, distribuiu 
aos participantes uma srie de folhetos que resumem muito bem os vrios aspectos. Referindo-se ao papel que 
a televiso desempenha como agente de socializao, ele mostra que as crianas e os jovens podem ser 
influenciados em suas aes, em seus pontos de vista, em seus valores, a partir dos temas expostos nos 
programas. 
Para exemplificar, ele cita como certos padres culturais podem ser difundidos. As mulheres geralmente 
aparecem realizando tarefas domsticas, com atitudes condescendentes, cujas preocupaes principais se 
relacionam com filhos e a manuteno de sua 
1 00 
beleza e juventude. Raramente aparecem como profissionais e. se o so, esto colocadas em posies 
subalternas. Em nosso meio. atualmente, alguns programas tm sido feitos visando principalmente a mulher. 
Alm de atender aos requisitos acima mencionados, procuram informar a respeito de poltica, de atualidades e 
de certa forma conscientizar as expectadoras para que busquem uma condiao de maior atuao social. Quanto 
s heronas, as meninas tm a Mulher Maravilha, que nada mais  do que uma verso feminina dos super-
heris tradicionais. H uma srie que apresenta mulheres exercendo papel de detetive. Mas, apesar de seu 
treino para essa tarefa, elas no deixam de usar sua beleza para conseguir seus objetivos e so comandadas 
por homens. 
No que se refere s minorias raciais, notadamente os negros, so sempre apresentadas em funes subaltemas, 
como agressores ou vtimas de agresso, no aparecendo como lderes, dirigentes; e, se os elementos de sua 
subcultura so trazidos, eles so apresentados de modo negativo. 
Assim, a TV pode perpetuar os preconceitos raciais e os esteretipos culturais. Uma mdlleira de evitar isso 
seria realizar programas que transmitam mensagens socialmente positivas, com brancos e negros, homens e 
mulheres trabalhando em conjunto, com igualdade de direitos, deveres, cargos ocupados etc. Isto foi 
conseguido de certa forma na programao de Vila Ssamo, que mostrava uma convivncia sadia de crianas 
de todas as raas. 
Mas  importante considerar que a programao da TV  apenas um dos elementos do processo de 
socializao e de formao da personalidade. A programao no incide da mesma maneira em todas as 
crianas. Por exemplo, uma criana que vive num lar onde as discusses, brigas e outras cenas agressivas so 
constantes, assistindo a programas onde o relacionamento entre as pessoas se d de modo agressivo, poder 
desenvolver tambm esse padro de reao, pois  o nico que lhe est sendo apresentado. J a criana que 
vivencia um relacionamento familiar onde as pessoas resolvem seus conflitos pelo dilogo, onde a interao 
pais-filhos  afetuosa, no sofrer conseqncias to negativas ao assistir a um contedo agressivo. 
Uma pesquisa realizada em 1978 por Luescher, citada pelo dr. Flemmer, concluiu que as crianas aprendem 
padres de comportamento que vem na televiso quando: a) um determinado comportamento  
recompensado como bom e certo; b) a criana se identifica com a pessoa que manifesta esse comportamento; 
c) a situao representada  semelhante quelas vividas pela criana; d) a criana e reforada pelos 
companheiros no que se refere  compreenso do contecio apresentado. 
101 
J 
O que ocorre muitas vezes  que as crianas vo acumulando informaes da televiso, e essa influncia pode 
fazer-se notar apenas a longo prazo, mas de maneira geral no afeta os princpios bsicos que norteiam o 
comportamento dos jovens. E preciso, ento, observar em que condies as crianas assistem  televiso. Em 
algumas famlias ela  tida como uma verdadeira bab eletrnica, substituindo o brinquedo livre, o contato 
com outras crianas e adultos. E claro que neste caso o efeito  mais pernicioso porque a TV est substituindo 
elementos afetivos fundamentais, e os modelos apresentados podem ser incorporados com mais facilidade pela 
criana, em vista das inadequaes dos modelos familiares. Neste caso, o equilbrio emocional da criana pode 
ser tambm mais precrio, e os programas de televiso podem liberar comportamentos que normalmente no 
existiriam ou seriam menos intensos (como, por exemplo, a agressividade). 
Em outras famlias, onde a televiso  apenas mais um elemento na vida da criana, sem substituir o contato 
caloroso com os pais (que podem estar com ela enquanto assiste  programao, explicando-lhe muitos 
aspectos, selecionando os programas adequados e inadequados, bem como controlando o tempo de exposio 
 programao) nem a interao com os companheiros, os efeitos da TV sero bastante minimizados no que se 
refere  formao da personalidade. 
Mesmo em relao ao desenvolvimento cognitivo da criana, vrias crticas so feitas  TV, no sentido de que 
a programao apresentada visa a interesses comerciais, ao consumo e no ao desenvolvimento do senso 
crtico e da flexibilidade de raciocnio. Neste caso, cabem as mesmas crticas feitas anteriormente a respeito do 
grau de influncia que a TV pode exercer. Segundo Piaget, a curiosidade intelectual da criana  to grande 
que num ambiente normalmente constitudo ela encontrar elementos para seu desenvolvimento. Agora, se a 
TV substituir as oportunidades de explorao, de perguntar e responder etc., os danos podero ocorrer 
realmente. 
3.4 Relacionamento com pais e companheiros na adolescncia: 
uma viso dinmica 
Na idade escolar podemos considerar os pais e os companheiros como agentes socializadores importantes. 
Isto tambm  verdadeiro para a adolescncia, se bem que neste caso o grupo de amigos tem como uma das 
funes principais a busca da identidade pessoal. Isto , na adolescncia o sujeito deve romper uma srie de 
ligaes que o prendiam ao mundo infantil. Para tanto, o relacionamento 
102 
com os pais ser bastante abalado, pelo questionamento que o adolescente far de seus progenitores, de seus 
cdigos de valores, de seu estilo de vida, de seus hbitos sexuais e sociais, de sua f, de sua ideologia. Este 
questionamento geralmente cria um ambiente de tenso intrafamiliar, porque  feito de maneira agressiva, 
desorganizada, por uma personalidade que est desestruturada, que est numa situao de busca de si mesma. 
Os pais, habituados a outro padro de relacionamento desde o nascimento do filho, de modo geral sentem-se 
ansiosos, magoados e desorientados, sem saber muito bem como atuar em relao aos filhos adolescentes. 
Isto porque a adolescncia dos filhos representa uma poca de mudana tambm para os pais. Muitos deles 
revivem, os conflitos de sua prpria adolescncia, seu prprio relacionamento traumtico com os pais, suas 
indefinies quanto  escolha de uma carreira etc. 
Alm disso,  medida que um filho se torna adulto, os pais sentem que a sua prpria juventude est chegando 
ao fim, e que devem preparar-se para viver uma outra fase da vida: a da idade madura. Esta passagem em sua 
prpria vida  muitas vezes incmoda, seno traumtica e angustiante, para os pais, que percebem que muitos 
de seus sonhos e aspiraes da juventude no se realizaram e no mais se realizaro (por exemplo, sonhos 
plenos de realizao profissional e afetiva). A potncia sexual comea a declinar, justamente quando seus 
filhos esto no pice da vitalidade, da beleza e da forma fsica. Isto tudo torna muitas vezes difcil para os pais 
lidarem com as angstias, com os questionamentos e com as agresses de seus filhos adolescentes. Da o 
sentimento de incompreenso tantas vezes manifesto por ambas as partes. O que a literatura psicolgica 
parece comprovar  que, quando o casal parental at essa poca da vida conseguiu ter um bom 
relacionamento, este tender a se aprofundar, a se modificar, a se ajustar a um novo perodo da vida, 
renovando a satisfao da vida em comum. Porm, quando esse relacionamento j vinha apresentando 
dificuldades maiores, a adolescncia dos filhos e a aproximao da meia-idade podem torn-lo insustentvel (e 
se ocorrerem desavenas entre o casal parental, mais difcil ser para o adolescente encontrar definies para 
sua prpria vida). 
Em relao aos filhos, no caso de famlias afetuosas, equilibradas, saudveis do ponto de vista psicolgico, 
por mais conflituoso que parea ser o relacionamento entre pais e filhos, essa crise ser ultrapassada  medida 
que o jovem encontre seu prprio caminho, defina-se em relao a um cdigo de conduta pessoal, encontre um 
companheiro, uma profisso, uma ideologia, enfim, toda a srie de elementos que lhe permitam solucionar a 
crise de identidade. Na fase de busca, de procura, de desestruturao, de discussoes 
103 
1 
com os pais, o jovem passa a dar uma importncia m ito grande ao grupo de compai heiros,  sua turma da escola, do 
libe, da rua, do bar (e atualmente, talvez, do fliperama). Entre o. seus amigos, ele se sentir compreendido (s vocs me 
compreendem), amado, sentir-se-  vontade para manifestar suas incongruncias, suas inconsistncias de personalidade, 
suas incertezas em relao ao futuro; suas crticas aos pais e  sociedade em geral podero ser discutidas. Enfim, o grupo de 
companheiros, na adolescncia, pode ser considerado como uma etapa intermediria, de transio, entre a vida infantil 
centralizada na famlia e a vida adulta autnoma e independente. 
Esses grupos juvenis costumam ter normas e costumes prprios, muitas vezes (pelo menos exteriormente) em completo 
desacordo com os padres adotados pela famlia. Caracterizam-se por uma uniformidade de conduta entre os seus 
membros, pelo uso de roupas bastante semelhantes, por uma linguagem prpria, pela preferncia por um tipo de msica 
(ou, como diriam eles, som) etc. 
Essa estereotipia tem justamente a funo de dar alguma segurana ao jovem, que, tendo destrudo o cdigo de valores dos 
pais que ele aceitou durante toda a infncia e no tendo ainda encontrado o seu prprio, sente-se inseguro. As prprias 
mudanas corporais que dificultam a sua autopercepo so cuidadosamente observadas nos seus companheiros 
(notadamente os do mesmo sexo), pois  a partir do conhecimento das mudanas corporais no outro que o adolescente 
aceitar melhor as suas prprias (alm da auto-explorao que se d pela manipulao do prprio corpo, pela exposio do 
corpo todo ou de algumas partes diante do espelho etc.). 
Experincias sexuais tambm tendem a ocorrer nos grupos, quer a partir da formao de pares de namorados, quer a partir 
de alguns contatos homossexuais. A sexualidade na adolescncia  imperativa, e. como eclode de maneira brusca e intensa, o 
jovem geralmente no sabe como lidar com ela. 
A ocorrncia de masturbao e de alguns contatos homossexuais  muito freqente e tem, alm do carter prazeroso e de 
alvio de tenso, a funo de auto-explorao (do conhecimento de suas prprias sensaes) e de explorao do corpo do 
companheiro. Essas atividades constituem uma etapa da evoluo da sexualidade que, em seguida, se dirigir para uma 
busca de satisfao heterossexual. 
Apesar da abertura maior que se observa atualmente em relao a assuntos sexuais, nem sempre essas primeiras 
experincias so gratificantes em funo do tipo de educao e do tipo de valores que foram transmitidos ao jovem desde a 
infncia inicial.  muito freqente haver uma srie de dvidas e de sentimentos de culpa em reao  masturbao e em 
relao s prprias brincadeiras sexuais 
(que inmeras vezes no chegam a consumar o ato sexual). No caso da moa, em nossa sociedade, esse 
aspecto da adolescncia costuma ser mais difcil do que no caso do rapaz, visto que a atividade sexual no 
homem  considerada bem mais liberal do que na mulher. 
A prpria vivncia das primeiras ejaculaes (a no ser em alguns casos) costuma ser bem menos traumtica e 
bem mais gratificante do que a das primeiras menstruaes. De maneira geral, o estabelecimento de uma 
identidade feminina saudvel, que implica a aceitao e sentimento de gratificao associados  menarca,  
gravidez, ao parto, ao aleitamento etc., ocorre a partir da relao do beb feminino com sua me e tambm com 
seu pai. Se a me est realizada e contente como mulher, e se o pai valoriza a filha por ser menina, esta tender 
a vivenciar suas funes femininas como gratificantes. As primeiras menstruaes sero motivo de alegria e de 
felicidade, pois significam a maturidade em termos sexuais e a possibilidade de maternidade. A menina nesta 
situao, apesar de sentir um certo desconforto fsico, tender a festejar a menarca, a contar para as amigas 
que j menstrua etc. 
Em outra situao, se a me v e sente as funes femininas como um peso que deve carregar, se sua vida 
sexual e suas experincias no desempenho do papel maternal no so satisfatrias, se o pai no valoriza a 
feminilidade da filha, as primeiras menstruaes podem ser acompanhadas de muita ansiedade e de um 
aumento do desconforto fsico, pois que a confirmao da maturidade sexual  vista como prenncio de uma 
srie de dificuldades. 
Se o processo de busca de identidade pessoal  difcil para o rapaz, parece s-lo mais ainda para a moa em 
funo do momento histrico e social que atravessamos. Mesmo em relao  escolha da profisso, h 
preocupao em encontrar uma carreira que permita conciliar os afazeres domsticos e o cuidado dos filhos 
com o desempenho profissional. 
As atividades e a constituio dos grupos juvenis variam de acordo com uma srie de variveis, entre as quais: 
idade dos componentes dos grupos, nvel scio-econmico-cultural, local de residncia etc. 
Muito se tem falado a respeito das influncias negativas que o grupo juvenil possa trazer para cada um de 
seus membros. O que muito amedronta os pais  a possibilidade de os filhos se viciarem em drogas ou lcool, 
ou de enveredarem para a delinqncia. Nao e nosso objetivo discorrer, aqui, sobre esses aspectos. O que 
temos visto na literatura psicolgica e em nossa experincia (h vrios anos supervisionamos entrevistas 
realizadas por nossos alunos de Psicologia, com adolescentes de vrias idades e nveis scio-econmicos, de 
ambos os sexos)  que talvez a maioria dos adolescentes chegue a 
1 04 
105 
experimentar drogas (principalmente a maconha) por presso do giupo. So freqentes os relatos de festinhas onde se 
oferece maconha, e a forte necessidade de pertinncia em relao ao grupo (que lhe fornece elementos para a definio da 
identidade pessoal) faz com que o adolescente a experimente. Mas o que ocorre, geralmente,  que os adolescentes com 
relacionamento familiar satisf atrio, sem muito autoritarismo mas tambm no excessivamente permissivo, no se viciem 
na droga. Desistem logo aps a primeira ou segunda dose. Contudo, aqueles que tendem a se viciar realmente, ou mesmo a 
praticar atos delinqentes, so os adolescentes oriundos de lares desfeitos, de ambientes conflituosos, que receberam 
educao excessivamente repressiva, ou que, pelo contrrio, tm pais excessivamente permissivos e indulgentes. 
Apesar da revolta que os adolescentes manifestam contra imposies de horrios e4e regras de conduta por seus pais 
considerados ultrapassados (caretas e quadrados), o adolescente precLa de limites. Muitas vezes, os jovens que tm 
pais excessivamente permissivos, que no colocam limites e no exigem explicaes, chegam, por exemplo, a imaginar um 
horrio para chegar em casa. Isto mostra que as imposies dos pais (desde que no sejam excessivas,  claro) servem como 
referencial para que o jovem encontre seu prprio caminho. Ele pode ir a favor ou contra, mas ter uma linha mestra de 
conduta delineada. 
Quanto aos valores morais, repete-se a mesma situao. Quando estes so estabelecidos de maneira firme na infncia, eles 
tendem a prevalecer na idade adulta. Em suma, um jovem que tiver uma infncia saudvel em termos psicolgicos, que tiver 
uma famlia onde se sinta aceito e amado, poder sentir angstias e dificuldades durante a adolescncia, mas dificilmente se 
tornar um viciado ou um delinqente. 
Neste sentido, um campo em que o psiclogo deve atuar incisivamente  o da orientao familiar, atravs de grupos de 
discusso de pais, pois a soluo dos conflitos familiares  a melhor maneira de prevenir distrbios, vcios e delinqncia. E 
esta  uma concluso a que chegaram todos aqueles que se dedicam ao trabalho com crianas e adolescentes, quer seja nas 
escolas, nas clnicas ou nas universidades, quer nos centros de pesquisas. E este  mais um ponto de concordncia entre os 
tericos da psicanlise e da aprendizagem social. 
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O processo de socializao na famlia em relao  TV; 4) O significado das emoes na programao infantil; 5) As crianas frente  televiso; 6) 
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107 ] 
Rappaport, Clara Regina (Coord.) 
Adolescncia 
Abordagem psicanaltica 
180 p., formato 14 x 21 cm ISBN 85-12-60470-O 
Aadolescncia  um conceito historicamente determinado, um fenmeno da modernidade, que atinge 
o jovem do ocidente por ocasio da ecloso da puberdade, quando, por falta de dispositivos em geral 
presentes nas organizaes societrias pr-modernas ou no ocidentais, a passagem da criana ao 
jovem adulto se tornou problemtica. As mudanas subjetivas que o indivduo tem que operar para 
dar conta das metamorfoses corporais e das novas exigncias sociais so abordadas neste livro, 
escrito por psicanalistas experimentados tanto na clnica quanto no ensino. 
Sumrio: Introduo. Sobre o lugar da adolescncia na teoria do sujeito. Aborrecncia. Anlise 
com adolescentes. Adolescncia, amor e psicanlise. A adolescncia e o pai: 
Sigmund adolescente e a adolescncia em Freud. Algumas questes sobre a dvida profissional do 
adolescente. Introduo a uma abordagem psicanaltica da questo das drogas na adolescncia. 
 ]prj 
o oLo O)oLo 
